
O modelo autogestionário de cooperativas é, reconhecidamente, mais inclusivo, justo e traz equilíbrio. Permite planejamento financeiro e transforma as relações laborais, já que todos os cooperados são sócios e participam democraticamente da gestão. Mas uma cooperativa sozinha dificilmente sobrevive muito tempo.
Sabendo disso, quando pensou na mudança econômica da cidade de Maricá através das cooperativas, o prefeito Washington Quaquá buscou em uma experiencia exitosa e que persiste há décadas, majoritariamente na indústria, o norte para a transformação necessária do município. Essa experiência está em Mondragon.
A região de Mondragon, no País Basco, hoje tem 98 cooperativas, sendo 93 industriais. Após a guerra civil espanhola, sob uma feroz ditadura e perseguida pelo governo, os habitantes da região passavam fome. Os jovens haviam morrido ou migrado para outros países. Mas a chegada do padre José Maria Arizmendiarrieta trouxe a visão de transformação. Ele organizou os moradores, fundou escolas e, 15 anos depois, iniciou a organização de cooperativas. Em dez anos foram quase 50 cooperativas criadas, e a maioria existe até hoje.
Essa longevidade de um sistema econômico próprio só foi possível com ferramentas de intercooperação e de reconversão de resultados, além das faixas salarias solidárias. Se uma cooperativa integrante do sistema cooperativo vai mal, ela recebe ajuda das outras. São criados fundos para pesquisa, desenvolvimento, manutenção de postos de trabalho em tempos de crise. E existem mecanismos para garantir que a renda entre os cargos mais altos e os cargos mais básicos não seja distorcida.
Em Mondragon ninguém dirige Ferrari e ninguém mora na rua. Todos trabalham com renda digna e, dessa forma, se assegura o equilíbrio econômico e se elimina a desigualdade social.
Em Maricá, os números já impressionam: o Movimento Cooperativo organizado pela Coopcamar já conta com quatro divisões : Engenharia e Tecnologia, Saúde, Social e Agroecológica.
São mais de 250 profissionais de engenharia, arquitetura e tecnologia (que já estão sendo contratados para desenvolver projetos de construção de aviões na cidade); quase 400 da área da saúde; cerca 350 na Divisão Social, entre educadores (que esse ano já começam a implementar as creches cooperadas), advogados, artistas, gestores de turismo (que irão gerir hotéis na cidade) e assistentes sociais, além cerca de 300 profissionais de paisagismo, jardinagem e veterinária na divisão de agroecologia. Já foram elaborados 70 projetos já voltados para a mudança econômica, cultural e social de Maricá.
Todos esses profissionais, reunidos em um único ecossistema cooperativo, respaldados por um Lei Municipal de Fomento ao Cooperativismo e por uma política municipal público-cooperativa, tornam esse movimento uma potência incrível, única e com possibilidades de alcance não só regional ou estadual. É um movimento que, em curto prazo, avançará em todo o país.
*Fábio Cardoso é educador popular e integrante da coordenação do Movimento Cooperativo de Maricá.

