Por que Lula deve fugir da armadilha dos debates no primeiro turno

Jun 29, 2026

Por Bepe Damasco                                                                         

 

Foto: Ricardo Stuckert

Direto ao ponto: penso que Lula não deve participar dos debates no primeiro turno entre os presidenciáveis, que já começam a ser promovidos em agosto pelas emissoras de TV.  Ao menos que fosse para chutar a canela de Flávio Bolsonaro sem dó nem piedade. Algo na seguinte linha:

"Eu queria aproveitar a oportunidade deste debate para discutir projetos para o Brasil. Infelizmente, sei que isso não será possível, pois um dos meus adversários aqui, o filho do golpista Bolsonaro, é um sujeito ligado a banqueiro delinquente e tem proximidade com o crime organizado, já que condecora e emprega milicianos de alta periculosidade. Autêntico traidor do Brasil, ele não se envergonha de tramar, no exterior, contra os interesses do Brasil, contra as nossas empresas, contra os empregos dos trabalhadores. Então, vou fazer o possível para manter um nível civilizado nesse debate, mas sei que será difícil, pois tenho certeza que meu oponente partirá para a mentira, a calúnia e o jogo sujo. É do DNA dele."

Mas sei que isso não ocorrerá. Não é do estilo de Lula. Longe de mim querer ensinar padre a rezar missa, afinal, Lula é um gênio da política, o maior estadista brasileiro da história.

Só que a postura cordata e educada dele nos debates dos quais participou, em todas as eleições do período da redemocratização, vem sendo aproveitada pelos adversários para atacá-lo e mantê-lo quase sempre na defensiva.

Talvez isso ajude a explicar porque nas três eleições que Lula venceu a disputa foi para o segundo turno, embora as pesquisas apontassem chances concretas da fatura ser liquidada no primeiro turno. 

É bem difícil para a esquerda brasileira vencer uma eleição presidencial na primeira volta, como se diz nos países sul-americanos de língua espanhola. Além da força social, eleitoral e política crescente do fascismo, temos o antipetismo da mídia, as forças armadas, as polícias, as milícias, as quadrilhas de narcotraficantes, o fundamentalismo neopentecostal cada vez mais enraizado e o mercado financeiro. 

No entanto, as performances aquém do esperado não só de Lula, mas também de Dilma Rousseff, especialmente nos derradeiros debates da Globo, sempre a três dias da eleição, também contribuíram para que os pleitos não fossem definidos logo. As pesquisas feitas da quinta-feira anterior à eleição, quando a Globo realiza seu debate final, até o domingo, sempre registram subida dos principais adversários, o que acaba sendo confirmado pela apuração da Justiça Eleitoral. 

Lula lidera em todos os cenários e não tem por que se sujeitar à óbvia armadilha a ser montada, com três ou quatro adversários se revezando em ataques ferozes a ele. O cerne da questão não é o lado moral, tipo achar que Lula tem que ir aos debates, porque sua não participação pode pegar mal e ser explorada como covardia pelos adversários. e pela imprensa comercial. 

É preciso avaliar se ele perde ou ganha mais participando ou se ausentando. Na minha opinião, Lula deve evitar a arapuca e deixar os oposicionistas falando sozinhos, comparecendo apenas aos debates de segundo turno.

Embora seja imbatível em comícios e entrevistas, Lula, pelo menos até agora, não tem se revelado um bom debatedor. E isso não chega ser nem um defeito, já que sua postura às vezes pouco combativa diante de adversários que babam de ódio tem a ver com suas qualidades morais. 

 

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