O primeiro erro foi estabelecer a marcação a mercado para os títulos públicos — a definição diária do preço do título ao longo de sua vida. O mecanismo funciona assim: imagine um título prefixado com valor de 100 no vencimento e rentabilidade de 10% ao mês. A taxa é usada para descontar o valor futuro e trazer o título a preço presente. No 100º dia — convertendo para 3,33 meses — o valor presente seria de aproximadamente R$ 72,78. Se a taxa de juros sobe para 15%, esse mesmo título passa a valer R$ 62,76. O mesmo fluxo futuro, descontado a uma taxa maior, vale menos. Queda de quase 14% no preço de mercado.
O segundo erro foi montar um combo de títulos cambiais e prefixados. Para adquirir os cambiais, o investidor era obrigado a levar uma batelada de prefixados junto. A intenção era empurrar prefixados no mercado. O que fizeram os investidores? Compraram o combo e venderam todos os prefixados. A explosão de ordens de venda derrubou o preço na marcação a mercado. Os fundos de investimento passaram a registrar rentabilidade negativa, perdendo valor. Instalou-se o pânico. Os investidores correram para se desfazer de suas aplicações, retroalimentando a queda.
Dou essa volta para chegar a um ponto que me parece central.
Na época, eu apresentava um programa na TV Cultura de São Paulo. Entrevistei o dono de uma empresa de equipamentos médicos em um arranjo produtivo nas imediações de Campinas. Com a desvalorização cambial, dizia-me ele, sua fábrica estava conseguindo superar concorrentes coreanos em licitações internacionais. Os equipamentos coreanos eram mais avançados tecnicamente, mas o preço do produto brasileiro fazia a diferença.
Logo após a eleição de Lula, conversei com um técnico do PT de Ribeirão Preto que havia sido secretário de Finanças de Antonio Palocci. Ele me traçou uma estratégia que me pareceu coerente: a desvalorização cambial havia aumentado a competitividade das exportações brasileiras; provocara inflação, mas a queda do poder aquisitivo dos consumidores no início do ano seria compensada pela entrada de uma safra generosa, reduzindo as pressões de preços; bastaria ao governo manter o câmbio desvalorizado e estimular o consumo em cima de produtos com baixo coeficiente de importação, como alimentos e vestuário.
Pensei comigo mesmo: habemus uma estratégia.
Nos meses seguintes, aconteceu o contrário. Dia após dia, uma taxa básica elevada passou a derrubar o dólar, até que sobreveio a valorização do real, matando qualquer oportunidade de um boom das exportações de industrializados. A janela se fechou antes de ser usada.
Conto essa história por uma razão simples. Nas redes sociais, petistas celebram a apreciação do real como se fosse uma vitória da política econômica. Dias atrás, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira voltou a alertar para o que ele chama de “doença holandesa” — a apreciação excessiva do real que corrói sistematicamente a competitividade da indústria nacional. A resposta nas redes foi um festival de ataques, como se discutir câmbio fosse algo anacrônico, uma obsessão de economistas fora de moda.
O padrão é sempre o mesmo: quando o argumento é incômodo, ataca-se o professor. Afinal, grande parte da transformação da indústria brasileira em maquiadora de produtos chineses se deveu a todos esses anos de apreciação cambial.
É evidente que administrar o câmbio exige muito mais do que vontade política. Exige a montagem de uma estratégia administrativa e de comunicação capaz de enfrentar as brechas que o capital encontra e a enxurrada de críticas que o mercado fará desabar sobre os gestores econômicos, através da imprensa especializada. Ninguém está propondo câmbio fixo ou voluntarismo. Está-se propondo que o preço relativo entre moedas seja tratado como variável relevante de política industrial — o que, convenhamos, não é uma ideia revolucionária.
Daí a abolir o preço das análises econômicas é um salto que nem Adam Smith ousou dar.


