
1) Antes de tudo, é importante esclarecer que este texto não tem o propósito de valorizar pesquisas eleitorais favoráveis e execrar as que não trazem boas notícias para o campo popular e democrático. Apenas pretende contribuir modestamente para a separação do joio do trigo, alertando para as armadilhas, falhas e manipulação política e midiática presentes em várias pesquisas de intenção de voto.
2) O alarmismo verificado em uma parte da esquerda não é proporcional ao que apontam as pesquisas. Primeiro porque esses levantamentos não mostram Lula sendo derrotado, mas sim em uma situação empate técnico na liderança da corrida presidencial.
3) Isso no segundo turno, o que significa colocar o carro na frente dos bois. Uma coisa de cada vez. Se ainda faltam cerca de seis meses para a realização da eleição, a pesquisa que vale é a do primeiro turno. E nessa Lula ainda está na frente nas sondagens de todos os institutos. Como priorizar o resultado de pesquisas de segundo turno sem saber o que vai acontecer no primeiro turno, que percentual de votos os dois finalistas obterão, além de suas performances, acertos e erros?
4) É fato que as pesquisas convergem para a consolidação de Flávio Bolsonaro como o candidato anti-Lula, agregando até agora não só a extrema-direita como uma parcela mais ampla do campo conservador. Só que, por enquanto, ele nada de braçada, com seu gigantesco telhado de vidro ainda preservado. Abre parênteses: poucos deram importância e a mídia corporativa ignorou, mas pesquisa da MDA/CNT divulgada na semana passada coloca Lula na frente em todos os cenários, inclusive no segundo turno, batendo Flávio Bolsonaro por cinco pontos percentuais de vantagem, portanto acima da margem de erro. Vale lembrar que a MDA, em 2022, acertou na mosca a margem estreita de votos entre Lula e Bolsonaro. Fecha parênteses.
5) Vale a pena investigar as metodologias das pesquisas que vêm sendo divulgadas. Algumas são feitas pela internet, outras por telefone, o que, segundo os especialistas, abala o grau de confiabilidade dos resultados. No caso de Lula, que tem grande apoio na faixa do eleitorado até cinco salários mínimos, o prejuízo é evidente, pois essas metodologias acabam concentrando a maior parte das consultas dos estratos médios para cima.
6) Não há um dia sequer em não sejam divulgadas pesquisas eleitorais. Nessa babel, institutos sérios e com um nome a zelar no mercado, como o Datafolha e o Ipec (antigo Ibope), convivem, por exemplo, como o Paraná Pesquisas, que já respondeu a processos por manipulação de pesquisas e que ostenta no currículo ter cravado 60% x 40% a favor de Aécio contra Dilma Rousseff a poucos dias do segundo turno de 2014.
7) Chama a atenção também o interesse da Faria Lima em patrocinar pesquisas. É o caso da Quaest, financiada pelo banco de investimentos Genial. Gente que estuda com lupa as metodologias dessas sondagens afirma que a Quaest trabalha em suas amostras com uma proporção de entrevistados das classes D e E menor do que esse contingente representa no total da população brasileira.
8) Na verdade, essas pesquisas há seis meses das eleições valem mais pela exploração midiática dos resultados e pelo viés político usado para interpretar seus números. Exemplos: quando Lula está numericamente à frente, mas dentro da margem de erro, as manchetes e chamadas ressaltam o empate técnico. Mas, se o adversário aparece com um ponto percentual a mais que Lula, a imprensa comercial não hesita em propagar que Flávio Bolsonaro lidera a pesquisa, em flagrante e vergonhoso dois pesos e duas medidas.
9) Outro truque são os títulos enganosos, feitos com base na constatação de que a maioria das pessoas passa apenas os olhos nas manchetes e desprezam o conteúdo das matérias. Assim, é comum a gente ler: "Flávio Bolsonaro amplia a vantagem sobre Lula". Mas quando se lê a íntegra da notícia surge sem nenhum destaque uma informação preciosa: a pesquisa foi feita entre os eleitores do Amapá, ou de Santa Catarina, ou do Paraná, ou de qualquer outro estado brasileiro onde o bolsonarismo é forte.
10) Moral da história: resultado de pesquisa, boa ou ruim, não é para ser jogado na lata do lixo. Contudo, como a esquerda e aliados têm pela pela frente uma guerra para impedir que o fascismo volte ao poder, só termos a ganhar com a devida contextualização de cada uma delas, sem nunca perder de vista que, não raro, elas são usadas como meros instrumentos de ação política.

