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Portugal vota para isolar a extrema direita no Palácio de Belém2

Fev 06, 2026

Por Cezar Xavier, no Vermelho                                                                                

António José Seguro, do Partido Socialista, defendeu união de "cidadãos democráticos e humanitários" para derrotar extrema-direita. Foto: RS/Fotos Públicas

O segundo turno das eleições presidenciais em Portugal, marcado para este domingo (8), tende a impor uma derrota acachapante à extrema direita. Todas as sondagens divulgadas na reta final da campanha indicam que António José Seguro, candidato do Partido Socialista (PS), deverá conquistar entre 50% e 60% dos votos — em alguns cenários, mais de 65% — cerca do dobro do apoio atribuído a André Ventura, líder do partido ultradireitista Chega.

Levantamentos recentes mostram ainda um elevado grau de rejeição ao candidato da extrema direita: aproximadamente dois terços dos eleitores afirmam que nunca votariam em Ventura. Esse fator tem sido decisivo para consolidar a vantagem de Seguro, sobretudo no segundo turno, quando o voto útil e a transferência de apoios ganham peso central.

Apoio transversal forma frente democrática inédita

Um dos elementos mais relevantes deste segundo turno é a formação de uma frente democrática ampla e pouco usual no contexto europeu. Conservadores influentes, ex-presidentes da República, dirigentes do centro-direita e a maioria dos candidatos eliminados no primeiro turno declararam apoio explícito a Seguro, com o objetivo declarado de impedir a chegada da extrema direita ao Palácio de Belém.

Entre os apoios estão nomes como o ex-presidente Aníbal Cavaco Silva, antigos ministros de governos de centro-direita e figuras históricas do PSD, CDS e Iniciativa Liberal. Para o analista Javier Carbonell, do Centro de Política Europeia, trata-se de um movimento raro: “É bastante incomum na Europa ver a centro-direita a apoiar um socialista. Há um elemento de preservação e de defesa de uma frente democrática”.

A ascensão de Ventura e os limites do crescimento

Apesar da expectativa de derrota, André Ventura chega ao segundo turno politicamente fortalecido. Ex-comentarista esportivo e figura central do Chega, ele transformou o partido — descrito por analistas como um “show de um homem só” — na segunda maior força parlamentar do país nas eleições legislativas do ano passado.

Sua campanha, marcada por discurso anti-imigração, ataques a minorias e retórica antissistema, reflete uma tendência observada em várias partes da Europa, onde a extrema direita tem influenciado agendas governamentais, especialmente em temas migratórios e de segurança.

Ventura obteve 23,5% dos votos no primeiro turno, contra 31,1% de Seguro, e falhou na tentativa de unificar a direita tradicional em torno de sua candidatura. Ainda assim, analistas avaliam que qualquer crescimento percentual no segundo turno — sobretudo se superar o desempenho recente da atual aliança governista — será apresentado por ele como vitória política e capital simbólico para futuras disputas.

“Sem ilusões, mas com clareza”

O Partido Comunista Português (PCP) assumiu uma posição clara diante do segundo turno das eleições presidenciais: é preciso derrotar a extrema direita. Em comício realizado em Almada, o secretário-geral Paulo Raimundo afirmou que votar em António José Seguro é, “com mais ou menos entusiasmo”, a única opção viável para impedir a eleição de André Ventura, líder do Chega.

Na avaliação do PCP, André Ventura representa “um instrumento nas mãos das forças mais reacionárias do capital nacional e internacional”. Para Paulo Raimundo, uma eventual vitória do líder do Chega agravaria problemas já existentes e aceleraria retrocessos sociais, laborais e democráticos. O secretário-geral comunista alertou ainda para práticas de manipulação, pressão e chantagem política que, segundo ele, marcaram o primeiro turno do pleito.

A direção comunista reconhece divergências profundas com António José Seguro e com o PS, mas defende que, no atual contexto, o voto no candidato socialista é um instrumento de combate à extrema direita. “Não temos ilusões”, reiterou Raimundo, frisando que a luta contra a política de direita continuará no dia seguinte às eleições, independentemente do resultado.

Para o PCP, o voto de domingo é decisivo, mas deve ser entendido como parte de um combate mais amplo: travar a extrema direita agora e, ao mesmo tempo, construir uma alternativa de esquerda com os trabalhadores e o povo.

Tempestades, pedidos de adiamento e resposta institucional

A campanha foi encerrada em meio a fortes tempestades que atingiram várias regiões de Portugal, provocando inundações, interrupções de transporte e o adiamento pontual da votação em alguns municípios. Ventura chegou a defender o adiamento nacional das eleições, argumento rejeitado pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), que afirmou não haver base legal para uma suspensão geral do pleito.

Seguro, por sua vez, defendeu a manutenção do calendário eleitoral, admitindo apenas adiamentos localizados onde não houvesse condições materiais para o voto, posição alinhada à decisão das autoridades eleitorais.

Mudança no sistema político e isolamento da extrema direita

As eleições presidenciais de 2026 simbolizam uma inflexão relevante no sistema político português. O Partido Social Democrata (PSD), que governou o país por duas décadas, ficou apenas em quinto lugar no primeiro turno, abrindo espaço para a polarização entre o PS e a direita radical. O cenário aponta para o retorno de um socialista à Presidência após vinte anos — ou, num cenário considerado altamente improvável, para a ascensão da extrema direita.

Para o cientista político Adelino Maltez, o desfecho provável reflete uma escolha estrutural do eleitorado: “A sociedade parece querer preservar a ordem democrática e constitucional, enquanto Ventura é visto como uma ameaça ao equilíbrio entre centro-esquerda e centro-direita”.

Vitória provável não encerra disputa de fundo

Mesmo com a perspectiva de uma vitória esmagadora de António José Seguro, o resultado não deve significar o desaparecimento da extrema direita do cenário político português. Ao contrário, a consolidação do Chega como força eleitoral relevante indica que o desafio à democracia liberal permanece ativo, ainda que isolado nesta eleição presidencial.

O segundo turno deste domingo, portanto, tende menos a resolver definitivamente esse embate e mais a marcar um limite claro: o eleitorado português parece disposto a conter, por ora, a extrema direita nas urnas — ainda que o debate político continue tensionado no pós-eleição.

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